Crónicas Matinais

[ quarta-feira, novembro 17, 2004 ]

 



Sempre que os meus ouvidos captam os diálogos tidos na Assembleia da República , a propósito de Orçamentos de Estado e afins , fico com saudades daquele livro da Alice. Do outro lado do espelho.
Ouvir a lebre apressada e o chapeleiro maluco , em pleno plenário, deixa-me nostálgica.
Mas também tem a ver com o tom. Aquele je ne sais quoi de paraísos artificiais que trespassa o éter.
E o álcool. Dou a minha cabeça a cortar se aquela gente não vai para lá já meia grossa.
E o cheiro, ai o cheiro...
Está uma mocinha em casa , liga a rádio, e logo ela lhe empesta os ares com a fedência de um bedum entranhado .
Sim, porque esses "debates" primeiro entranham-se . Só que depois não se estranham.
É sempre a mesma merda...
No entanto, há por lá uns moços -- peritos em escaqueirar -- que eu curto. Bué. Não instruem , mas divertem.
Está um dos cidadãos a falar e tal : blá, blá, blá, a consolidação, a justiça , os pobrezinhos, etc, e logo outro toma a palavra. É bonito porque enceta-se logo ali uma espécie de diálogo quezilento que os dois pespegos tratam logo de repartir com a plateia e que alvoraça a populaça. Muito bonito.
Tá certo que são argumentos estreitinhos , mas justamente por isso merecedores de bojardas oposicionistas, imprecações ; respostas abruptas e virulentas.
Nenhum dos presentes se acachapa na poltrona e desatam todos a dardejar bestialidades ferinas.
Há mesmo uns que batem com os pézinhos . E o que eu gosto quando eles batem com os pézinhos...
Nisto já se passaram largos minutos de "debate" e é hora de me atascar de pipocas. Gosto muito de ver filmes, ou melhor , de os ouvir, atascadinha de pipocas e refrigerantes. Recatados hábitos, bem o sei...
Cabe aqui estabelecer um distinguo : como e bebo, é bem verdade, mas há debates onde vou mais longe. Foi o caso de hoje. Estava a gostar tanto, tanto, da peça teatral radiofónica, que não me coibi de esfurancar as narinas.
Mantendo ,no meu alvo rosto, o sorriso jucundo.
Gostei muito de um momento em que estava um dos moços a responder a um outro e nisto há um terceiro , um abelhudo, que interfere dizendo qualquer coisita . Nisto o moço que usava da palavra , malandrote, pergunta ao afoito que falava em tempo alheio : « Está a falar da Coreia do Norte ? é que não consegui perceber bem ...»
Bem...
Cuido que foi um puro exercício prático da tão proclamada fleuma britânica.
Eu por mim falo : a.d.o.r.e.i !
Só que o sketch não foi mais longe, com muita pena minha.
Tá certo, estes "debates" achavascados não servem para nada, mas, caramba !, assarapantam as almas.
O que é preciso é rir, minha gente, o resto...o resto é conversa da treta.
E eu sou muito amiga de rir...

[ Agora a sério: de tanto dizerem mal deste OE e vindo de quem vem as maiores críticas, estou convencida que este é o melhor orçamento dos últimos anos. ]







Ana [11/17/2004 02:32:00 da tarde]