- O meu amigo Carlos está na blogosfera há um ano.
Não é ele que está de parabéns. Somos nós! Obrigada, querido Carlos!
- Este meu modesto blog - e enquanto não me passar a fúria - não terá comentários. Quem me quiser insultar terá de o fazer por e-mail. E chamem-me cobardolas, ditadora , etc. Estou é farta de alimentar a úlcera por causa de certos comentários.
Os amigos e amigas que sempre foram educados comigo, mesmo não concordando com o que escrevo e penso - o que é muito normal já que eu própria tenho muitas vezes vontade de me mandar à merda - que me perdoem se puderem.
- Não quero convencer ninguém de nada. A realidade está aí, pode ser vista por todos. Mas cada um sabe de si.
- Recomendo , esta semana, um grande thriller internacional : «Found Money- Midnight Comes at Noon» de Daniel Easterman. HarperCollins Publishers, Londres.
Porque é que eu espero que o futuro não esteja só nos jovens
Fui tomar um chá com uma colega francesa ,há bocado, ali ao café da esquina. Nisto chega a filha adolescente da minha colega,que tinha bombardeado a mãe com telefonemas até a senhora , vencida pelo cansaço, lhe dizer onde estava.
Chega a mocita,que conheço há quatro anos, andrajosa,cabelo sem ver champô pelos menos desde o Natal, lenço à Arafat; enfim, o costume na "juventude rebelde e inconformada " de hoje.
Sem mesmo dizer boa tarde, a miúda estende a mão à mãe: quer porque quer 50 euros. A mãe bem insiste em saber para que é que ela quer o dinheiro , mas ela estende a mão e não quer conversa. Como sempre fui uma apaixonada pela antropologia , decidi meter a colher e convidei a miúda para se sentar e tomar qualquer coisa connosco. Provavelmente por estar esganada de fome ( a mãe diz que ela , tirando os charros, não se alimenta de nada; acha as refeições , pelo menos em casa, burguesas ) diz que sim, que come uma sanduíche de queijo e bebe uma cerveja. Era o bebes! Mandou-se vir a sanduíche e um sumo de laranja.
A Carol tem 16 anos. É rebelde, mal-cheirosa por opção e é também altermundialista ou lá como se chama essa merda.
Sem que eu abra a boca, a miúda começa a meter-se comigo por causa da minha estrela de David ; da que tenho no colar que uso desde que me conheço por gente.
Como a mãe estava presente, achei melhor respirar fundo e não lhe assentar duas valentes bofetadas no trombil...( sim, sim, eu também sei falar à "jovem"...)
Mas puxei pela língua da criatura, em sentido figurado, claro! Tortura, para mim, só como último recurso...
A miúda, qual robot programado , desata a vociferar contra os judeus; que matam os inocentes e tal; que só querem é dominar o mundo e o diabo a quatro. Eu deixo-a falar, enquanto a mãe retorce as mãos e pensa « onde foi que eu errei! onde foi que eu errei!».
Engulo em seco, desvio a conversa. Pergunto-lhe o que ela pensa dos métodos dos radicais, numa palavra: do terrorismo.
Diz que acha muito bem. Que « os oprimidos têm de se defender como podem» e que há «gente que merece morrer».
Quem por exemplo, pergunto eu , temendo já o pior.
Ela responde olhando-me nos olhos e sem vacilar : « os judeus e os americanos e todos os que os defendem».
Mantendo-me calma , relembro-lhe que sou judia. E pergunto-lhe se ela também acha que eu devo morrer.
E ela responde-me de forma enigmática: « Se tiver de ser...».
E eu, apesar de já o ter ouvido opiniões semelhantes tantas vezes, na boca de tantos loucos, fiquei gelada. Uma miúda, de 16 anos; filha de uma colega minha.
A mãe, coitada, berrou com ela e ameaçou bater-lhe. Não deixei, para quê?
Antes de entrar para esses movimentos que dizem não à guerra , mas pilham, queimam, batem e destroem, a miúda era normal. lembro-me dela com 13 anos, a comer Kosher na minha casa e a achar original e engraçado.
Agora é um ser humano deplorável e do qual eu tenho medo.
Por mim e por ela. Ana [3/17/2004 05:28:00 PM]
Não, a sério!
Assim a blogosfera não vale a pena! Não é que nenhum dos do costume disse ainda que esta sondagem é uma invenção dos belicistas que apoiam quem quer combater o terrorismo sem paninhos quentes ? Pfff...isto assim não vale a pena! ...
Ou então, vai-se a ver, e perceberam - finalmente- que as ideias de quem se preocupa apenas com o blá-blá-blá não coincidem com a realidade de quem realmente vive os problemas.
Melhor assim. Ana [3/17/2004 02:53:00 PM]
[ Segunda-feira, Março 15, 2004 ]
Não, a sério! Eu gosto mais de pôr aqui links para blogs que gosto e para ideias que compreendo. Mas pronto, abro uma excepção.
Como não adianta nada também eu gastar latim com os rapazes do Barnabé apenas lhes deixo um conselho-amigo : Por favor sejam mais cuidadosos aconduzir! Ana [3/15/2004 02:11:00 PM]
O dia 11 de Março vai passar a ser o Dia Europeu das Vítimas do Terrorismo.
No dia em que o Parlamento Europeu se preparava para aprovar o dia 11 de Setembro como Dia Europeu das Vítimas do Terrorismo , acontecem estes atentados terroristas em Madrid.
O que me chocou ao redigir esta notícia foi constatar que os socialistas europeus, e a esquerda europeia se tinham manifestado contra a escolha do dia 11 de Setembro porque consideram, e passo a citar : « que o dia 11 de Setembro não é significativo para a Europa.»
Como se o 11 de Setembro, o 11 de Março e muitos outros dias e meses não fossem uma única e mesma coisa.
Como me disse , há momentos , uma colega espanhola que trabalha comigo: « pode ser que agora fiquem mais contentes com a data!...». Ana [3/11/2004 03:21:00 PM]
Mais um dia 11 em sangue. Nada pode justificar o horror.NADA !
Adenda: bom, os diabos vermelhos fizeram uma análise quase justa ao jogo no sítio deles. Ana [3/10/2004 10:38:00 AM]
[ Terça-feira, Março 09, 2004 ]
Nuno: nunca te poderei traduzir por palavras o que senti ao ler o teu post «Novo Antisemitismo? As Novas Faces do Mais Antigo Ódio do Mundo». Só posso agradecer-te muito.Muito mesmo. E esperar que o teu bom senso, a tua clarividência e a tua generosidade , consigam deitar por terra , pelos menos alguns dos preconceitos e das ideias empedernidas que sempre minaram as discussões , o mais das vezes estéreis, sobre o anti-semitismo; o antisemitismo. Tod Meod! Todá Rabbá!
O Que Eu Penso Do Dia Internacional Da Mulher [ Claro que isto só vale para o nosso pequeno mundo ocidental , e europeu; e dito civilizado... ]
Eu, mulher , já fui acusada de discriminar a condição feminina.
Uma colega , aqui há uns anos, tentou convencer-me a enviá-la a Pequim em reportagem.
Eu disse que não, que nem pensar!
Vociferou ;disse-me que eu era pior do que os homens , que a estava a discriminar por ser mulher, etc. etc.
Eu , agora que tenho oportunidade, tenho de confessar que foi verdade. Não a mandei a Pequim porque ela manifestava claramente a sua condição de mulher. Pronto, está dito.
Claro que o tempo deu-me razão : quatro dias depois dela me ter acusado de discriminação para com a sua condição de mulher... ela dava a luz o Salvador , com 53 cm e 3,250 kgs. Parto normal.
;)
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Não se esqueçam que o Miguel anda a preparar os nossos óscares! [ Ai!...]
Para desanuviar :este pedacinho da deliciosa peça " Viagem à Roda da Parvónia" de Abílio de Guerra Junqueiro em colaboração com Guilherme de Azevedo.
( depois não digam que não tenho fair play )
[A cena representa uma arcada do Terreiro do Paço. – Vários grupos conversam. – De quando em quando rapazes atravessam apregoando cautelas. – Vendilhões de água fresca gabam a excelência do líquido.]
[...]
JUDEU (Aparece montado num burro, traja varino grosseiro, galochas de borracha, na cabeça um carapuço de lã. com borla; vem coberto de pó dos séculos – ou, não podendo ser de pó dos séculos, de qualquer outro. A tiracolo um frasco de genebra e um binóculo. Apeia-se ficando com o burro preso pela rédea.) Tenho corrido Seca e Meca, faltava-me correr os Olivais de Santarém! Condenado pelo destino a caminhar constantemente, andarilho eterno, um verdadeiro almocreve dos tempos, depois de ter visto as pirâmides do Egipto, o Pólo Norte, Roma, Cartago, Babilónia; depois de ter assistido à queda dos impérios, ao dilúvio, à revolução de 1820, (suspende-se) perdão! (Olhando para a plateia.) Aquele senhor de óculos azuis que ali está no fundo da plateia, muito espantado a olhar para mim, quer talvez saber quem eu sou, de onde venho e para onde vou? Eu lhe digo. Quem sou? Sou o Judeu Errante Júnior. Tenho de idade 7 000 anos e três dias, (mostra um papel) aqui está a certidão. – Nascido na freguesia do Éden, filho do Judeu Errante Sénior, solteiro, isento do recrutamento, bacharel em quatro faculdades e vacinado. – Ando há sete mil anos à busca da Parvónia e só hoje a pude encontrar. Tenho-me farto de perguntar a toda a gente aonde fica este país, e diz-me um: olhe, é ali abaixo, à direita, com um ramo de louro à porta; – caminho, caminho, caminho e vou dar à ilha de Chipre! Torno a perguntar, e respondem-me: olhe, vá o senhor andando por aí abaixo, e em sentindo no nariz um cheiro pouco parlamentar, pode ter a certeza de que nesse instante pousou a planta fatigada na cidade de Ulisses, outrora Ulissipo e em nossos dias Parvónia. Finalmente, cheguei, não há dúvida. (Levando o lenço ao nariz.) Fique entretanto entendido, ó Lusos, que se cheguei devo-o unicamente a este raro quadrúpede originário de Sintra, que um príncipe excêntrico daqui levou há dois anos, e que há poucos dias mandou vender em leilão. Foi ele que, movido pela nostalgia da pátria, me conduziu à terra que lhe foi berço e aonde recebeu a sua primeira educação. (Prende o burro.) Descansa, dedicado companheiro, descansa que bem o precisas!
1º SUJEITO (Perguntando ao outro.) Quem será este sujeito, quem será?
2º SUJEITO Espera, vamos ver; o Diário de Notícias há-de dizer alguma coisa. (Puxa dum órgão da opinião, que traz muito bem dobrado na algibeira furtada, e lê:) «Espera-se hoje nesta cidade, depois duma digressão pela Europa, o Judeu Errante Júnior, cavalheiro de estimáveis qualidades, muito conhecido dos nossos leitores, abastado proprietário e capitalista, condecorado com várias ordens nacionais e estrangeiras, entre as quais a do camelo branco de Portugal e a de S. Tiago da Arábia. S. Sª viaja incógnito e tenciona demorar-se pouco tempo entre nós. Fazemos votos para que o ínclito viajor encontre no país do canoro épico Luís de Camões toda a acolhida lisonjeira a que tem jus.»
1º SUJEITO Cá está o homem que me convém. (Aproxima-se.) Meu caro senhor. (Curva-se numa profunda vénia.) Tenho a honra de o cumprimentar. Há muito tempo que o conhecia de nome.
JUDEU Oh! meu caro amigo, penhora-me.
1º SUJEITO Por enquanto não, sossegue. Eu quando tenho notícia da chegada dum forasteiro ilustre, acudo sempre a prestar-lhe a minha homenagem e a proporcionar-lhe ensejo de mais uma vez patentear o seu coração filantrópico em prol duma instituição de beneficência, que é a primeira de entre todas as que florescem no sagrado rochedo das pátrias liberdades, de onde há 44 anos vieram os 7 500, que, depois de tantas batalhas e de tantas privações, estão hoje reduzidos a pouco mais de 15 000!
JUDEU Bem sei de que me falais. Falais-me dessa instituição simpática cognominada modernamente o albergue da Ilha das Galinhas?
1º SUJEITO Acertaste, viajeiro.
JUDEU (Descalçando as galochas de borracha c entregando-lhas.) Aqui tendes as galochas de Aasvero: galochas ilustres que deram a volta ao globo, e que tu, ó benfeitor da humanidade, poderás vender ao governo para o museu do Carmo, colocando nessas palhetas legendárias a seguinte inscrição:Pisaram do Sinai as sarças inflamadas,
Calcaram do deserto o areal imenso,Com umas solas só, galochas tão danadas.Quem as pode fazer? Deus ou o Manuel Lourenço.(Assinado) Possidónio.
1º SUJEITO (Calçando as galochas.) Graças, viajor, cá vão para o museu. (Retira-se humildemente.)
UM POETA (Saindo apressado do portão duma secretaria.) Li o seu nome nos jornais e creio que o meu não lhe será também desconhecido. Chamo-me Artur. Sou um poeta célebre, sócio da sociedade filarmónica Os Sobrinhos de Minerva e preparo-me para fazer o meu exame de instrução primária. (Tira um rolo de papel do bolso.) É um volume de versos. Passei metade da minha vida a escrevê-lo e outra metade a procurar um editor.
JUDEU Infeliz! (Tira dinheiro do bolso, recebendo o manuscrito.) Não tenho mais trocado, queira desculpar dar-lhe só um pataco.
POETA(Recebendo.) Obrigado! Já vejo que sabeis dar protecção ao génio. (Aparte.) Vamos beber um copinho de Holanda.
JUDEU Já sei que neste país o costume mais arreigado é o de pedir. O que vale é que se contentam com pouco.
POLÍTICO (Aproximando-se.) A folha deu-me conta da sua chegada. Permita-me que o venha felicitar em nome do grupo político de que faço parte.
JUDEU Oh! meu caro, penhora-me imenso, e visto ser penhorado todo o que vem a este país, pedia-lhe o extremo obséquio de dizer o que pretende de mim.
1º POLÍTICO Tomo a liberdade de lhe pedir o seu voto.
JUDEU Mas, não estou aqui recenseado!
1º POLITICO Não tem dúvida: vota em Belém.
JUDEU Mas sou um estrangeiro...
1º POLÍTICO Que tem isso? Vota como morto.
JUDEU Mas o meu voto nestas condições o que pode valer?
1º POLÍTICO (Ao ouvido.) Vale uma libra. (Dá-1he uma libra e retira-se.)
JUDEU (Guardando o dinheiro, cheio de nobre isenção eleitoral.) Extraordinário país! Cheguei há meia hora e eis-me já sem consciência e sem galochas! Palavra de honra! do que tenho mais pena é das galochas!
ACCIONISTA DUMA COMPANHIA (Aproximando-se do Judeu.) Felicito-me com o meu país pela chegada dum cavalheiro de tantos créditos. Ora aqui está quem me vai ficar com estas cinquenta acções da companhia do gás.
JUDEU Pois não, meu caro senhor. Com todo o gosto. Quanto quer?
ACCIONISTA Bem sabe que com a vinda das noites grandes as acções tornaram a subir imenso.
JUDEU Bem sei. Olhe, para evitar questões tome lá por elas esta caixa de fósforos, mas mande-me pôr em casa o gasómetro; desta maneira ficamos ambos habilitados, o amigo para acender um charuto, eu para o apagar.
ACCIONISTA Contrato feito. Vou ajustar dois galegos e pode contar que ainda hoje lhe fica colocado na cozinha. (Sai apressadamente.)
2º POLITICO Eu não tenho o gosto de o conhecer, mas é o mesmo. Não o incomodarei muito. O gabinete está em crise, as inscrições descem: o país, desde Maçãs de D. Maria até Cabeceiras de Basto, levanta-se como um só homem e batendo um murro patriótico no altar da pátria exclama: salta Messias para um! Há três meses que pomos este anúncio no Diário de Notícias: (lê) «Precisa-se de um Marquês de Pombal por um semestre. – Dá-se fiador e paga-se aos meses. Exigem-se as seguintes habilitações: Bigode e pêra. A pêra pelo menos é indispensável. Calva a que for possível: antes de mais que de menos. Peso, as arrobas necessárias para um conselheiro, desde 12 a 24, não incluindo a cabeça. Estômago de avestruz; dentadura em bom estado; ler, escrever, contar, as quatro operações, principalmente a subtracção; estado qualquer, incluindo o de demência. Idade certa, moralidade incerta; profissão vadio. Sabendo recitar ao piano prefere-se. Carta à Rua dos Vinagres, nº 69, sobreloja.» (Declamando.) Ora como ainda não apareceu concorrente que satisfaça, lembrei-me de o consultar a tal respeito, visto ser um cavalheiro de tal guisa e de tamanho estofo.
JUDEU Peço desculpa, mas declaro-me incompetente. Neste país estão tantas pessoas à mesa do orçamento, que acho muito melhor ir para os Irmãos Unidos.
POLÍTICO Então queira perdoar. (Retirando-se.) Para a outra vez será.
JUDEU Não tem de quê, meu caro senhor, não tem de quê.
1º BANQUE1RO Ora aqui está o cavalheiro que eu procuro há tanto tempo. Meu caro senhor: sou um dos primeiros banqueiros da Parvónia. Não tenho nada de meu e devo quatrocentos contos de réis: é o que se chama entre nós uma fortuna sólida.
JUDEU Quantas vezes quebrou?
BANQUEIRO Apenas quatro! É muito pouco, bem sei, mas dêmos tempo ao tempo. A minha questão é esta: pretendo fundar um banco que se deve intitular: – Sociedade de Agricultura do Pinhal da Azambuja, – destinado a fomentar a pobreza do país, a ruína dos accionistas e a prosperidade dos directores. O nosso programa é simples: levantar o mais que puder e pagar o menos que for possível: ao cabo de ano e meio fugimos e os accionistas são metidos na cadeia.
JUDEU (Com entusiasmo.) Com mil demónios! Você é um homem de génio. Dou-lhe um abraço, e sabe a razão por que não aceito o seu convite? É porque ainda não tive tempo de comprar um apito.
BANQUEIRO Então muito obrigado. Virei noutro dia em que tenha fundos disponíveis. (Retira-se e assalta outro sujeito que passa, agarrando-o pelo botão do casaco.)
JUDEU (Reparando num indivíduo que se dirige a ele com ar sinistro.) Outro! o que quererá este? Deus do Céu, é um país único esta Parvónia!
GEÓGRAFO (Solene.) Preclaro viajante. Sabemos que a sua excursão tem sido das mais aventurosas e das mais profícuas para a ciência. Sabemos que V. Ex descobriu as nascentes do Alviela; que fez a viagem à roda do Terreiro do Paço em três anos – e de gatas; que subiu intrepidamente a Calçada da Estrela numa corrida à hora, e a pé; sabemos que, se não descobriu o Brasil, foi porque já estava descoberto; sabemos que está isento do recrutamento; sabemos que é maior; sabemos que é vacinado e portanto, quer queira quer não, está nomeado sócio emérito das mil c duas sociedades de geografia que existem na Parvónia, com a condição. expressa de fazer uma prelecção em que demonstre: 1º, que o Alviela é um rio; 2º, que o Tejo é de cristal; 3º, que os caminhos-de-ferro portugueses, antes de explorarem os accionistas, já tinham sido explorados pelo governo.
JUDEU Oh, meu caro senhor. Na verdade sou inábil para tão grande cometimento! No meu testamento tenho determinado que se me grave na campa fria o seguinte epitáfio: – Foi bom pai, bom esposo, bom irmão, bom amigo; e, não obstante, parece impossível! não foi sócio da Sociedade de Geografia. – Já vê que me é impossível aceitar.
GEÓGRAFO Paciência: não fiquemos mal por isso; até outro dia.
VIÚVA Meu caro benfeitor: uma esmolinha pelo amor de Deus; sou uma pobre viúva com 37 anos e 44 filhos todos tísicos: um deles é corcunda e tem quatro braços. Tenho um cirro no estômago e deito sangue pelo nariz; demais a mais ardeu-me ontem a casa!!... (Chora.)
JUDEU Infeliz! só lhe falta ter caído de um andaime! Tome lá um pataco para mandar levantar a casa e a espinhela dos seus meninos. (Dá-lhe dinheiro: a viúva sai agradecendo.)
CICERONE(Chegando apressado: grande toilette de belfurinheiro em exercício.) Ora onde eu o venho encontrar! Maganão, há tanto tempo que o não via!
JUDEU (Absorto.) Nem eu, meu caro senhor. Nunca o vi mais gordo! O que deseja?...
CICERONE (Falando apressadamente, e tirando vários objectos das algibeiras e da mala que traz a tiracolo.) Então a amigo já tem hospedaria? Precisa escovas para o cabelo? Quer a pasta da Justiça? Quer que lhe leve as malas ou quer a carta do Conselho? Olhe, ali na Rua do Arsenal há cigarrilhas espanholas magníficas, mas se quer ó hábito de S. Tiago também se lhe arranja: isto aqui é pedir por boca. Não tem senão escolher: ou vai para a Rua dos Vinagres ou então, se lhe faz mais arranjo, pode meter-se no Tribunal de Contas. No Conselho de Estado não há agora vaga. Prefere ser guarda-nocturno? visconde não é mau, mas guarda a cavalo é melhor. Escolha; deseja empenhar a consciência, deseja empenhar o relógio? Pretende ser deputado? Pelo governo custa-lhe 300 libras, pela oposição 200. Quer casar, quer ser da irmandade dos Terceiros? quer elogios nos jornais? Ou antes pelo contrário não quer nada disto e deseja apenas ser um brasileiro rico e bem conceituado na sua freguesia? Porque não me fica com este décimo da lotaria de Espanha e com esta comenda de Isabel a Católica? São ambas do Fonseca! Vamos, decida-se: o senhor precisa por força de alguma coisa. Aqui tem uma pomada para fazer cair o cabelo e os ministérios; aqui tem cartas de conselho, tftu1ºs de dívida infundada, baralhos de cartas, fluidos transmutativos, microscópios para ver pulgas e grandes homens; títulos para deitar nódoas e sabonetes para as tirar; enfim, aqui tem nesta drogaria diabólica tudo quanto é preciso para levar um homem desde a imortalidade até à polícia correccional!
JUDEU (Entusiasmado.) Heureca! achei o meu homem! O Cicerone que eu procurava há tanto tempo! (Dando-lhe o braço.) Vamos dar um passeio pela Parvónia.
CICERONE A primeira coisa que há a fazer, para obter tudo o que quiser, eu lha digo já, – entretanto será sempre bom disfarçar o nome e a cara. Agora, para abrir caminho e conseguir tudo, absolutamente tudo, deve propor-se deputado. As eleições estão à porta.
JUDEU Deputado! Mas se eu não souber ler nem escrever?
CICERONE Melhor! pode já contar com a eleição; não há tempo a perder, vamos à igreja.
JUDEU (Detendo-se.) Mas o demónio é o burro! aonde é que havemos de guardar este jumento?
CICERONE Não tem dúvida. (Chamando um garoto.) Olé! vai-me meter este burro no Tribunal de Contas. (Saem de braço dado.)
Estava a escrever mais um post sobre a pena de morte; sobre -e sempre- crimes que envolvem crianças e ...e o noticiário das 14 h , da Antena 1 , abriu com a notícia de que tinha sido descoberto o corpo de uma criança, uma menina , em Moçambique: sem olhos, sem coração e sem sexo.
Apaguei tudo. Não quero falar mais neste assunto. É insuportável ter cada vez mais argumentos. Ana [3/04/2004 03:16:00 PM]
[ Quarta-feira, Março 03, 2004 ]
Caramba! , é-me perfeitamente indiferente que a Odete Santos seja comunista e eu seja de centro-direita: ela disse muitas verdades na abertura do debate sobre o aborto na A.R.. Esta não é, não pode ser!, uma questão política.
É uma questão humana. De livre escolha. Tem de ser. É uma questão de Liberdade. De Democracia.
Já a defesa do aborto feita pelo cidadão Louçã , sinceramente, acho que toda a gente pode dispensar.
A forma como ele iniciou a defesa -de uma boa causa- é nojenta. Mais: Louçã, ao aproveitar este momento para fazer luta política centrada em Portas é muito mais desrespeitador para com as mulheres que abortam do as opiniões dos movimentos "pela vida".
Vamos lá então, querida Charlotte :A pena de morte
Não pretendo convencer ninguém. Nem sequer justificar-me. Digo apenas que –para dois tipos de crime - defendo sem qualquer problema de ordem moral a aplicação da pena capital. Da pena de morte.
Defendo , sem problema algum , a pena de morte para casos de pedofilia e de infanticídio[ a talhe de foice, deixem-me dizer, para que não haja confusão, que a vida, para mim, começa quando se nasce.] .
Fosse eu a mandar, e esse Dutroux e a ex-companheira, por exemplo, e depois de cantarem tudo o que sabem, eram mandados desta para melhor. Trigo limpo farinha Amparo. Ou aquele casalinho português ( não me lembro agora dos pormenores porque , para conseguir dormir, esqueço os pormenores, mas nunca as vítimas! ) que matou à pancada aquela criança de dois anos. E todos os casos semelhantes teriam igual justiça.
Esta é uma das poucas questões onde não deixo que a minha emoção , o meu amor ao próximo, seja ele qual for, –intrínseco em mim - se sobreponha.
A minha razão comanda. E se julgam que a minha relação com D-us é incompatível com tudo isto, enganam-se.
Ele dotou-me de livre arbítrio.
O bem e o mal não são conceitos estritamente divinos; muito pelo contrário. No nosso mundo, no mundo em que vivemos, só os homens podem fazer o que entendemos por bem e o que entendemos por mal.
De modo que , em se tratando de homens, é aos homens que compete, aqui, na terra, julgar os nossos actos.
Depois, no patamar maior, D-us fará a sua justiça. Mas, cá em baixo, é a nós que nos compete.
É uma questão de escolha, de colocar os factos na balança : é justo matar um homem? Não.
Mas o que é a justiça? É deixar esse homem violar, espancar e matar uma criança e depois deixá-lo estar numa divisão, com pequeno-almoço, almoço ,lanche e jantar? Com uma caminha? Com muitas pessoas, todas muito boazinhas, a pedir clemência por ele? E os estados a sustentá-los?
Para mim isso não é justiça. Para mim isso é criminoso.
Eu não acredito na redenção de violadores e de infanticidas.
Não aceito as boas intenções de quem vem explicar que , coitadinhos, esses criminosos tiveram uma infância difícil; foram abusados , etc.
Para mim é muito claro: quero que esses criminosos se fodam; que ardam no inferno e quanto mais depressa melhor. E como defendo sempre a legalidade, defendo que a pena de morte, para esses dois casos, seja incluída nos códigos, claro.
Se isto que defendo é condenável então logo acertarei contas com D-us. Mas é assim que penso e não pretendo mudar de ideias.
Ora cá está um epípeto que eu não conhecia! E cai que nem uma luva no sr. Louçã, lá isso não se pode negar....
E ainda dizem que não se aprende nada com os políticos portugueses!...
Quando ao desafio , querida Charlotte, pois que direi o que penso sobre. Daqui a pouquinho.
Agora vou ouvir de novo as declarações do ministro Portas sobre o deputado Louçã. Saboeirola é g.e.n.i.a.l.! Torquemada já é mais batido...
Além disso , e sendo tão raro eu concordar com o que diz o ministro Portas, é ainda mais delicioso.
Já agora, e como está na ordem do dia, devo dizer que a minha posição sobre o aborto não é- de todo- semelhante à do ministro Portas.
if it doesn't come bursting out of you
in spite of everything,
don't do it.
unless it comes unasked out of your
heart and your mind and your mouth
and your gut,
don't do it.
if you have to sit for hours
staring at your computer screen
or hunched over your
typewriter
searching for words,
don't do it.
if you're doing it for money or
fame,
don't do it.
if you're doing it because you want
women in your bed,
don't do it.
if you have to sit there and
rewrite it again and again,
don't do it.
if it's hard work just thinking about doing it,
don't do it.
if you're trying to write like somebody
else,
forget about it.
if you have to wait for it to roar out of
you,
then wait patiently.
if it never does roar out of you,
do something else.
if you first have to read it to your wife
or your girlfriend or your boyfriend
or your parents or to anybody at all,
you're not ready.
don't be like so many writers,
don't be like so many thousands of
people who call themselves writers,
don't be dull and boring and
pretentious, don't be consumed with self-
love.
the libraries of the world have
yawned themselves to
sleep
over your kind.
don't add to that.
don't do it.
unless it comes out of
your soul like a rocket,
unless being still would
drive you to madness or
suicide or murder,
don't do it.
unless the sun inside you is
burning your gut,
don't do it.
when it is truly time,
and if you have been chosen,
it will do it by
itself and it will keep on doing it
until you die or it dies in you.
there is no other way.
and there never was.
insifting through the madness for the Word, the line, the wayCharles Bukowski Ana [3/02/2004 05:23:00 PM]
Cromossomas X
Querida, querida Charlotte: explica-me lá, se fizeres favor, porque é que classificas com um «aaargh!» , o vestido da Renée?!. É o único modelo que eu usaria de todos os apresentados. E explica-me lá , se também fizeres o favor, como é que uma esfregona –que, vais desculpar-me mas não tem outro nome- te merece um sóbrio : «bom vestido azul». Sim, falo do vestido da Curtis. Só se é pela cor, porque o Azul, já se sabe, é a cor mailinda do mundo.
Vá, querida, polemiza comigo. ;)
Mas, atenção! : por favor não me venhas com o « art-like appearances» de Townsend; muitos menos com Aristóteles;Hegel; Kant; Wittgenstein;Schelling; Schopenhauer;Nietzche;Kierkegaard;Fichte; Tarkosvski;Klee;Beardsley; ou Goodman , porque eu de estética não percebo nada! ;) hi hi ...
adenda: A Charlotte já me respondeu e, como sempre, bem. Anunciou novo tema e muito pertinente. Mas tem de ser a Charlotte ( se fizeres favor! ) a abrir as hostilidades. É quem tem a batuta. Ana [3/02/2004 12:47:00 PM]
[ Segunda-feira, Março 01, 2004 ]
Vamos a uma pequenina lição de história ou Lá vou eu perder a paciência outra vez
Andam para aí umas luminárias a redescobrir a pólvora. Mas a molhada. E o que é essa substância explosiva composta de salitre, carvão e enxofre? Os Semitas. Finalmente perceberam o que quer dizer semita e, sendo brinquedo novo, é fartar vilanagem!
Eu da vida dos outros não sei, mas da minha posso falar. E na minha vida o conhecimento sempre foi importante. Desde abrir rádios a pilhas para ver como é que aquilo funcionava por dentro, até arranjar "quem" me explicasse o que queriam dizer as palavras que eu não entendia. E descobri os dicionários.
Quero com isto dizer que, quem seja dotado de alguma curiosidade - a inteligência é facultativa- sabe -desde os verdes anos- o que Semita quer dizer. Basta abrir um dicionário e está lá está tudo escarrapachado: «de Sem, n. pr., filho de Noé ;s. 2 gén., pessoa descendente de uma raça que se diz oriunda de Sem; s. m., (no pl. ) família etnográfica e linguística que compreende vários povos, em particular os Hebreus e os Árabes..»
Eu, que tenho a mania, ainda acrescento, para ajudar mais: os Assírios; os Aramaicos; os Fenícios ; os Babilónicos... ( eu sei, é redundante, mas gosto assim de tudo explicadinho...)
De maneira que todos os originários da península arábica , de Sem, são semitas. Todos.
Mais acrescento que: as três religiões monoteístas - Judaísmo,Cristianismo, Islamismo - Têm base e origem semita.Eram um círculo cultural diferente, com língua diferente e possuiam regras muito próprias. Podia levar a historinha mais longe, mas não tenho nem tempo, nem paciência. Atalho já para o principal: o termo semita , ou melhor, anti-semita , é utilizado -no sentido restrito- em relação aos judeus. Toda a gente sabe isso. Ou se não sabe devia saber; ou se não sabe , se não entende o que a vox populi quer significar-pelo uso comum, tudo pelo uso considerado senso comum- então que se cale. Que meta a viola no saco. Mas não.
Voltando ao dicionário. Pega-se num , um qualquer, e na palavra anti-semita pode ler-se, por exemplo isto: « adj. e s. 2 gén., pessoa inimiga dos semitas, especialmente dos judeus.».
Lá está.
Até as pedras das calçadas sabem que, neste século e no outro, e no outro ainda, quando alguém fala em anti-semitismo está a falar particularmente de judeus. É senso comum.
Vir agora, em tom de canção do bandido, perguntar a quem se insurge contra o anti-semitismo, contra esse cancro para o qual parece não haver remédio, se sabemos que os árabes também são semitas...dá-me cabo dos nervos!
Se há coisa que não gosto nada é que tentem ensinar a missa ao padre ; e menos ainda que façam a malta passar por estúpida....
A má fé , estou em crer, é a maleita do mundo. Especialmente vinda de quem afirma não ter fé nenhuma.
O problema é grave e merece um post.
A minha conta de e-mail adstrita a este blog está com problemas. Sérios. Envolve vírus .
Pelos vistos alguém me enviou um e-mail com um vírus que se apropriou do meu endereço e o está agora a utilizar para enviar vírus a outras pessoas. Não tenho culpa nenhuma. Mas está a acontecer. Ainda por cima tudo isto está a provocar problemas sérios na minha conta de e-mail que , apesar de ainda funcionar, o faz de forma dolorosamente lenta. E alguns e-mails que me enviam -escrevo isto aqui porque a correspondência é maioritariamente respeitante ao blog-ficam a olhar para mim , muito queridos, mas não os consigo abrir. De maneira que se me atrasar nas respostas aos vossos simpáticos e-mails não é por má-educação que o faço. E aproveito para avisar que se receberem um e-mail meu, com anexo, não abram por favor que é um vírus de certeza. Só os e-mails , sem qualquer anexo, são mesmo meus. E a razão pela qual o afirmo com tanta certeza é esta...cof cof...eu nem sequer sei muito bem como incluir um anexo no e-mail! :)
Vá, podem gozar com o meu autismo informático mas acautelem-se com os vírus, ok? Ana [3/01/2004 12:09:00 PM]
As minhas mulheres:
Amo a minha mãe, as minhas irmãs, a minha avó, digo, as minhas avós, algumas amigas e a Helena Matos.
Sobre os óscares só posso dizer que tudo correu como se adivinhava. E que ainda não vi o "Monstro".
Ah, e também gostava de dizer que concordo inteiramente com o que escreveu Pedro Mexia no postA «Decadência», de 19.2.04.
Em decadência está o Benfica. Ana [3/01/2004 11:24:00 AM]
[ Quinta-feira, Fevereiro 26, 2004 ]
ex digito gigas / extra causam
E , meus amores, não se esqueçam: finis coronat opus
Já é costume. Por isso não me admira por aí além que alguém, em pleno séc.XXI, afirme que o Holocausto é uma invenção.
Assusta-me; assusta-me sempre, mas não me causa admiração. Foi o que fez -obrigada Francisco pela chamada de atenção e pelo link - o pai de Mel Gibson.
Mas as posições do senhor Hutton Gibson não são novas. Ele sempre as defendeu e o facto sempre foi conhecido.
Claro que, desta vez, foram buscar o senhor por causa da iminente estreia do filme do filho; a tal « Paixão de Cristo».
Hutton Gibson é, de facto, um anti-semita primário. É-o desde sempre. É também um católico ultra-conservador. O filho Mel é um católico conservador também -não reconhece, por exemplo, o concílio Vaticano segundo, onde os judeus foram ilibados de culpas pela morte de Jesus Cristo que era, recorde-se, um judeu. Mas se o pai expressa em palavras esse seu ódio doentio aos judeus, o filho não o faz. Só que, como o mesmo confessa, a temática da morte de Jesus Cristo obceca-o; tanto que desde há 12 anos pretende fazer este filme e, mesmo não tendo o apoio da indústria cinematográfica , fê-lo com o seu próprio dinheiro -25 milhões de dólares- , recorrendo a uma produtora e destribuidora independentes. Então se não o expressa por palavras, nada mais eficaz do que fazê-lo por imagens. Surge então este filme.
Já se sabe que o objectivo da família Gibson é mostrar a culpa dos judeus na morte do "messias" católico-cristão e isentar de culpas os romanos, especialmente Pôncio Pilatos , que o Gibson filho apresenta como um fracalhote sem personalidade , influênciado pelos rabinos judeus; um cobardolas que se limita a executar ordens dos semitas.
Até aqui , eu, como devoradora de cinema, só posso afirmar: « ok, cá está um filme idiota,embora perigoso,mas lá está, é apenas ficção; não se baseia, como a maior parte dos filmes , em factos reais.»
Mas não. Este filmezeco é apresentado como a verdadeira história. Como se, passado tantos e tantos anos, um novo "messias" , munido de câmaras e efeitos especiais, viesse trazer a luz da verdade ao mundo.
É um filme perigoso, reaccionário e anti-semita. É.
Mas o que me chateia é que, ao falarmos tanto da ficção dos Gibson , estámos a contribuir para o seu sucesso. Para que mais pessoas o vejam. Só que , de facto, deixar passar em claro uma mentira tão atroz , um branqueamento tão grande da verdade e da história , não pode ser.
Nem toda a gente é parva, é certo, mas há uma imensa parte que o é. Se já é dificil , nos dias de hoje, acabar com os preconceitos de antanho em relação aos judeus, não ajuda nada deitar mais achas para a já imensa fogueira anti-semita que grassa por este mundo fora.
É por estas e por outras que sinto ódio por todos os ultras. Sejam de que religiões forem.
É que esta questão não é entre católicos e judeus: é entre doentes mentais e gente sã.
E mais não digo porque, ao contrário do Nuno Guerreiro e do Francisco José Viegas, tendo a peder a calma, e a educação, com qualquer filho da puta anti-semita.E já falei de mais.
Foi há pouco, há poucochinho. No bar cá da chafarica.
Ela toda recatada , sentadinha com as mãos no colo, olhar ausente...À frente dela uma chávena de café.
Ele ,sorriso jucundo, a entrar em palco abrasado por um sentimento daqueles mais fortes. [ Eu pensei comigo: é tudo tesão; o gajo anda à caça. Andava.]
Galhardamente fala a toda a gente;ele. Ela olha para ele e cora. [ E eu cá comigo: olha, esta quer ser caçada.Queria.]
O rapazola pede a bicazita e algo para mastigar , abanca na mesa ao lado da dela. E eu , com as minhas duas colegas, a topá-los.
O moço diz uma graçola –dirigida a todo o estabelecimento- e ela também se ri. Qualquer coisa em relação ao frio. [ E eu a pensar: pois, pois, e quem diz frios diz calores...]
Ele enrola mais umas patacoadas e voltam todos a mostrar os dentinhos. Ai que risota!
E eu a topar a rapariga que não só mostrava os dentinhos, mas também deixava a posição recatada e mostrava as coxas , cruzando as pernas espremidas dentro de uma saia justíssima e curta.
O malandrote também a topou. Atira mais qualquer coisa com chiste ( onde eu estava ouvia mal ) , mais gargalhadas entrepitosas da assistência e ele a mirar a presa; a ver se ela se dava também ao riso. Dava. Então não dava!
Ele, já com qualquer coisa a sarandilhar-lhe dentro da boca ( acho que era um pedaço de tarte; blaghhh falar com a boca cheia! ) diz mais qualquer coisa pretensamente espirituosa e hilariante e encara-a . Ela , coitadita, estava-se a rir , mas ao vê-lo a olhar só para ela...engasga-se !
E então foi vê-la muito aflita, praticamente a espumar-se , com a cara arroxada, a tossir , a tentar esconder o rosto mas ao mesmo tempo aflitíssima e preocupada em continuar a respirar.
Nisto o herói vai-se a ela , bate-lhe ns costas –com alguma violência pareceu-me- e a moça debulha-se em tosses e líquidos; é que isto aconteceu enquanto ela dava um golinho no café...
Ele , com a boca ainda cheia, e quiçá movido pela mais pura solidariedade, também começa a tossir.
É do frio! –dizem uns que a tudo assistem . O gajo estava a conter o riso e não aguentou mais , penso eu , pérfida como sempre...
Ela, entretanto, está quase recomposta e aflige-se por ele. De facto ele já não tossia: ele estava completamente desesperado! Lá aquela coisa que ele estava a comer deve-lhe ter ficado encalhada na garganta e o rapaz lutava ali – bravamente- pela vida. Desata ela então a dar-lhe palmadas nas costas e nisto...resulta! Ele começa a respirar –ainda a custo é certo, mas a respirar...mas não sem antes lhe ter vomitado os restos do lanche em cima. Da rapariga salvadora, pois então!
E assim, o que poderia ser uma belíssima história de amor ... cheira-me que nunca o virá a ser.
É que ambos deram corda aos sapatinhos, rostos mortificados, e ala que se faz tarde! E cada um para seu lado, claro.
Terminada a cena grotesca, disfarçámos as três o riso , e tentamos conversar como se nada se tivesse passado. Mas foi impossível.
Diz a minha colega Carol : « Ah...ela cuspiu o café para cima dele, não foi?»
«Foi.» Respondemos.
« E depois ele vomitou em cima dela...» Resumiu a Natacha.
«Pois foi.» Concordámos.
«O amor é uma coisa tão bonita!» Digo eu. «E repartir, repartir, assim, os fluído, também é muito bonito.» Acrescento.
«É, é.» Dizem elas.
Levantámo-nos .
«Se fosse comigo...acho que me enfiava em casa durante um ano.» Diz a Carol , já a segurar a porta do bar.
«Eu matava-me!» Diz a Natacha.
«Pois eu mandava-lhe a conta da lavandaria!» Digo eu fechando a porta atrás de mim...
Pois é, Nuno, o nosso Purim é carnavalesco. Eu diria mesmo que foi aí que começou tudo.Enfim...
Divirtam-se todos muito ,que eu, confesso, não gosto de carnavais e , ainda por cima, sou abstémia! :) Não bebo.
Mas sou muito amiga de rir.
Ainda ontem, entre uma entrevista a um prémio Nobel e uma sanduiche de pepino, me fartei de rir. Estava na cantina cá da chafarica, a ler umas patetices num jornal cá do burgo; um texto cheio de acusações gratuitas e facilmente rebatíveis por quem anda de olhos abertos ( era sobre o muro ...), quando ao meu lado se alaparam dois coleguinhas. Um deles patrício.
-Que tás a ler? -pergunta-me ele.
Ora, só este "tás" deu-me logo ali a volta à barriga ; custa alguma coisa utilizar os verbos como deve ser ?
-O jornal... -respondo eu.
-Isso tou eu a ver, mas que notícia?
( E ele a dar-lhe com o tou! )
-Não estou a ler notícia nenhuma; este jornal não escreve notícias, só opiniões...
-Lá estás tu a cascar no "Liberation"...
-Não é cascar. Digo a verdade.
-Aposto que estão a dizer mal de Israel ( riso trocista)...
-(silêncio)
-Ana..diz lá o que é que eles dizem.
-Pega no jornal e já ficas a saber.
-Mau feitio...
-Deixa-me ler em paz. Pira-te.
-Não precisas de ficar assim; diz lá...
-Lá...
-Tu não sabes conversar!
-Quem disse que quero conversar? Estou a ler. São duas acções incompatíveis.
-(suspiro) Ana...eu, eu queria ...
-Querias o quê? Diz rápido que quero continuar a ler, já te disse.
-Por causa de Sexta-feira.
-O que é que há Sexta-feira?
-Eu entro de madrugada e não me dá jeito nenhum...
-E queres fazer o quê? trocar de turno?
-Sim...achas que dá ?
-Sei lá! Tens de perguntar a quem trabalha contigo.
-Eu sei mas, tu tens de autorizar...
-Pois é.
-E então?
-Então o quê?
-Bolas, Ana, se alguém trocar comigo autorizas?
-Depende...
-Depende? depende de quê?
-De me deixares continuar a ler...
-A ler? Tipo ...agora?
-Tipo agora.Exactamente.
-Eu deixo! Eu deixo!
-Olha lá ..e foi por isso que vieste ter comigo?
-Er...foi mais ou menos...
-Hum...ok...e, olha lá, é mesmo muito importante trocares de turno?
-É! Uma amiga minha faz anos e eu, bem, sabes como é ( sorriso matreiro)...
-Sei; sei como é. Mas, não é que isso condicione seja o que for, mas não me voltes a mandar a piadinha do Israel , ok?
-Claro. Eu estava a brincar ! Eu até acho que eles fazem muito bem , tu sabes o que eu penso...
-Pois...
-Eu até admiro muito os judeus , tu sabes!...
-Não me estás a deixar ler...
-Oh, desculpa, é que queria que soubesses que estava a brincar , eu, eu admiro muito os...
-Carlos...se não me deixas em paz , agora, não há trocas nem baldrocas...
-Sim, oh...já vou, desculpa, até logo...
- Adeusinho...
-Depois mando-te o papel para assinares, ok? obrigado!...
-Começo a achar que não vale a pena...
-Já vou! Já vou!...Té logo
-Espera. Há mais uma condição -inegociável : utilizas o verbo estar e não dizes tou ; e dizes até logo e não té logo...boa?
-Oh...chiça, tu és...
-Sou o quê?
-Nada, não é isso...
-Sou...nada???
-Não! És uma chefe porreira e eu vou-me embora agorinha mesmo , está bem?
-( sorrindo ) Muito bem!
-Er...mas és um bocadinho déspota e chantagista! ( fugindo em passo de corrida )...
-Ah...ah...ah... pois sou! Nunca te esqueças!
E depois fiquei ali dez minutos a rir ;e acabei por deitar o jornal ao lixo.
Estavam ali parados. Marido e mulher.
Esperavam o carro. E foi que veio aquela da roça
tímida, humilde, sofrida.
Contou que o fogo, lá longe, tinha queimado seu rancho,
e tudo que tinha dentro.
Estava ali no comércio pedindo um auxílio para levantar
novo rancho e comprar suas pobrezinhas.
O homem ouviu. Abriu a carteira tirou uma cédula,
entregou sem palavra.
A mulher ouviu. Perguntou, indagou, especulou, aconselhou,
se comoveu e disse que Nossa Senhora havia de ajudar
E não abriu a bolsa.
Qual dos dois ajudou mais?
Donde se infere que o homem ajuda sem participar
e a mulher participa sem ajudar.
Da mesma forma aquela sentença:
"A quem te pedir um peixe, dá uma vara de pescar."
Pensando bem, não só a vara de pescar, também a linhada,
o anzol, a chumbada, a isca, apontar um poço piscoso
e ensinar a paciência do pescador.
Você faria isso, Leitor?
Antes que tudo isso se fizesse
o desvalido não morreria de fome?
Conclusão:
Na prática, a teoria é outra.
in "Vintém de Cobre-Meias confissões de Aninha"
Cora Coralina