Crónicas Matinais

[ terça-feira, março 01, 2005 ]

 

O correspondente brasileiro do "Crónicas Matinais" está de volta e em grande forma. Fala-nos de biografias, género literário que também me apaixona.
Antes de colocar a crónica de Glauco Arns Moretti, quero agradecer os e-mails que me mandam , a meu pedido, sobre o tema "liberdade de expressão" ; espero por mais , até ao final da semana ,e depois publicarei esses e-mails, essas opiniões. Concorde ou não com o que dizem. Aos que pedem anonimato fiquem descansados, transcreverei a prosa sem a assinatura. Mas não deixo de achar curioso o pedido.

E agora, com o frio de rachar que trespassa a Europa como ruído de fundo, vamos até ao Brasil:


A biografia da sua história

*Glauco Arns Moretti
Adoro biografias. E por um motivo. Sou da opinião de que a história da humanidade é o resultado dos feitos dos grandes homens. Não é novidade que as grandes realizações da história tiveram um dedo, mão, pé, cabeça ou corpo inteiro de alguém, pois afinal de contas existimos para deixar alguma marca durante a nossa existência. Sem grandes ladainhas, leitor, resumidamente, quem não faz nada de útil, simplesmente não deveria ter nascido. E dentro desta tônica, puxo com meu cérebro uma prosa diferente hoje, já que estou menos técnico e mais sentimental. Estou impressionado comigo mesmo e hoje deixo meu coração escrever. Meu Deus, será que este sou eu?
Em um livro bom pra caramba, Ruy Castro detalha a vida do Mané Garrincha, sua vida, seus lances mágicos em pernas tortas, suas loucas histórias, suas farras, sua vida de mulherengo nato, a bebida, enfim, a morte na miséria. Mas o que chamava a atenção era o desapego de dinheiro, as fugas dos treinos para rever os amigos e a simplicidade que levava durante toda a vida. Talvez não possamos ver nada de interessante na vida do Mané, mas aposto todo o dinheiro que não tenho que ele faria tudo novamente. De Fernando Morais, li Olga, que abandonou uma vida razoavelmente confortável na Alemanha para seguir por caminhos tortuosos contra o Nazismo. Poucas mulheres, e homens, tiveram a coragem e o espírito de luta de Olga Benário. Foi assassinada, depois de sofrer todas as angústias que apenas uma vida muito sofrida podia lhe oferecer. Acabou heroína, porém asfixiada numa câmara de gás. Imitando Getúlio, saiu da vida para entrar para a história. Percebeu, leitor, citei duas histórias lindas que terminaram trágicas.
Mas nem todos os grandes homens terminaram mal. No livro Chatô, O Rei do Brasil, Fernando Morais conseguiu esmiuçar a vida de uma pessoa das que eu considero mais interessante e malucas. Francisco de Assis Chatobriand. Nem que eu vivesse duzentos anos, leitor, conseguiria fazer o que fez Chatô. Aprontou horrores, fez desafetos, viu o céu e o inferno em montanhas de dinheiro, trouxe a televisão ao Brasil, mas sempre foi um cara extremamente original. E originalidade, simplesmente é tudo. Foi o que fez, Henry Ford, no ápice de sua famosidade, depois de ser o primeiro a construir um automóvel com motor a gasolina. Ford, fez algo que considero maravilhoso. Ao ser convidado pelo Presidente Franklin Roosevelt, negou um pedido de jantar com o próprio presidente e mais a Rainha e o Rei da Inglaterra na Casa Branca. E o motivo foi bastante convincente. Ele não poderia comparecer porque sua mulher tinha uma reunião no clube de jardinagem e ele teria que acompanhá-la. Inacreditavelmente maravilhoso.
Uns fazem mais, outros menos. Sou da opinião que o importante é fazer, leitor, e você há de concordar com esta coisa tão óbvia. Os grandes feitos são executados com simplicidades e ousadias. Os grandes homens venceram batalhas, inventaram remédios, construíram máquinas, lapidaram o mundo, apenas usando a inteligência. E ser inteligente também é simples. E não tenho dúvidas que inteligência, simplicidade, um pouco de maluquice e coragem andam de mãos dadas rumo a felicidade. E não sou eu quem afirmo. É o que a história nos mostra.

[ glaucoarns@yahoo.com.br ]

Ana [3/01/2005 10:24:00 da manhã]