Crónicas Matinais

[ segunda-feira, maio 30, 2005 ]

 

Les cons ont droit à leur fierté

Não é o não francês que me chaga a molécula.
Se havia uma pergunta com duas respostas possíveis, é tão legítima uma como outra.
O que me chaga a molécula é que toda a campanha do não francês foi feita com base na premissa de que a França é quem mais ordena na Europa, e que se a França diz não, todos devem mudar de ideias e seguir a França.
Isso é insuportável, arrogante e anti-democrático.
É o total desrespeito pela opinião de todos os outros povos, de todos os outros países da UE.
A França não tem legitimidade para impôr o que quer que seja a quem quer que seja, tal como todos os outros 24.
Numa união ,mesmo esta feita com cuspo, onde os cordeis são demasiados frágeis por questões antigas ou recentes, é inadmissível que haja um país onde uma campanha se desenrole como se desenrolou em França.
Onde houve um argumento comum a filhos da puta da extrema direita , e a idealistas utópicos da extrema esquerda : se nós dissermos não, todos os outros têm de se vergar à nossa vontade.
É inadmissível e foi isso que me doeu mais durante toda a campanha .
Porque de facto o Não da extrema direita e o Não da extrema esquerda não são iguais, de todo! São mesmo o oposto. O segundo é demagógico, o primeiro é pura e simplesmente criminoso.
Mas ambos apostaram na fierté dos franceses...de serem franceses!
Ou seja, nenhum dos campos do Não defende , realmente, a ideia que levou à ideia da União Europeia.
Não está em causa a legitimidade do não, percebem? Está em causa a legitimidade de todos os países . Duzentos e vinte milhões de europeus já disseram sim ao tratado . Pois , para o campo francês do não, isso é secundário. Aliás, este referendo , aqui em França, pouco versou sobre os outros. Foi sempre considerado um assunto interno. Apenas e só um assunto interno.
Sempre que a opinião de personalidades de outros países , sobre o debate francês, era dado a conhecer , a crítica surgia - unânime : « mete-te na tua vida, ó estrangeiro de merda!»
Não aceito isso e, francamente, apetece-me mandar a França , e os franceses que ainda não perceberam que o mundo pode avançar sem eles , para a puta que os pariu!
A França, a maioria do povo francês, tem todo o direito de dizer não. Mas não pode esperar que quem disse sim, e que quem ainda nem sequer disse nada, desista das suas convicções e vontades.
Disse não e agora arca com as consequências e espera que os outros digam também de sua justiça.
Não pode exigir - não tem qualquer direito para o fazer - que o processo pare antes da hora; que haja um plano B imediato. Que haja sequer um plano B por sua causa.
Quem dita as regras é a União Europeia, a Comissão Europeia e o Parlamento Europeu.
Não é a França.
Por muito que lhes custe, não são os franceses sozinhos os chefes supremos da UE. Não são porque não podem ser; nem eles nem nenhum dos outros membros.
Se não a União Europeia não faria qualquer sentido.
E faz. Faz ,mais do que nunca, sentido. E ainda faz mais sentido num país que coloca na segunda volta das presidênciais um fulaninho chamado Le Pen...
É isto que me faz estar zangada com a França . Não o Não em si.
Como já disse, se há uma pergunta, e se essa pergunta tem duas respostas possíveis, é tão legítima uma como a outra.

Mas , não nos enganemos, no Não da França há também mão racista e ultra-nacionalista. Uma mão bem cheia.
Porque os franceses que votaram ontem , são os mesmo que votaram nas presidênciais de 2002. Não só, mas também.
E eu, sinceramente, não se sinto confortável com isso.
Seja como for, o que é preciso marcar bem, é que o processo de ratificação do tratado só termina em Novembro de 2006. E , até lá, a França espera , como todos os outros estados membros, por uma decisão definitiva. Mesmo que se discuta a actual crise a fundo, está fora de questão - tem de estar fora de questão! - renegociar o que quer que seja sem que se consultem os restantes milhões de europeus que ainda nada disseram.
Se não for assim, então que se acabe de vez com a ideia de uma União Europeia . Mais vale.
É muito mais democrático!

Ana [5/30/2005 04:05:00 da tarde]